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Crítica - Ice Age: Continental Drift (2012)

 
Realizado por Steve Martino e Mike Thurmeier
Com Ray Romano, Denis Leary, John Leguizamo, Peter Dinklage

Tal como acontece com as sagas de “Madagascar” e “Shrek”, a saga “Ice Age” parece ter vindo para ficar, dado que vai já na sua quarta aventura e os recordes de bilheteira continuam a ser rebentados com estrondo. A fórmula começa a desgastar-se um pouquinho, pois já nem o esquilo mais azarado da 7ª Arte (estamos, claro está, a falar de Scrat) consegue ter a mesma piada. Porém, o que é certo é que ninguém se parece cansar das aventuras de Manny, Diego, Sid e companhia limitada. Verdade seja dita, a saga “Ice Age” nunca esteve ao nível dos projetos mais sólidos e deslumbrantes da Pixar (ou mesmo da Dreamworks). Apesar de ser visualmente competente e de apresentar um conjunto de personagens bastante divertidas, esta saga deixou sempre no ar a sensação de que se estava perante um produto mais infantil e menos ambicioso. E o problema é que, a cada filme que passa, essa infantilidade torna-se mais notória, aproximando “Ice Age” dos filmes da Disney mais simplistas e conservadores. Não há nada de tremendamente errado neste “Ice Age: Continental Drift”, essencialmente porque as personagens continuam genuínas e engraçadas quanto baste para seguirmos as suas proezas com algum agrado. Contudo, os pontos centrais da narrativa são excessivamente previsíveis (e até mesmo moralistas), dispersando a atenção do público adulto. E a insistência em trazer mais e mais personagens secundárias para o enredo só danifica o equilíbrio da obra como um todo, pois nem todas elas recebem o aprofundamento que mereciam, transformando-se em meros peões que vão ajudando a narrativa a desenrolar-se sempre que esta chega a um impasse.


Nesta quarta aventura, o mamute Manny (Ray Romano) vê-se obrigado a enfrentar duas problemáticas: os terríveis anos da adolescência da sua filha Peaches (Keke Palmer) e a desagregação da crosta terrestre, um fenómeno que parece determinado em conferir à Terra um novo desenho geográfico. Num dia como tantos outros (leia-se um dia em que Manny dá um raspanete à filha por esta desobedecer às suas ordens e insistir em aventurar-se por locais proibidos), um tremor de terra abala a ilha onde todos viviam tranquilamente. Fendas enormes abrem-se no solo e, como consequência disso, Manny, Diego (Denis Leary) e Sid (John Leguizamo) são forçados a separar-se dos outros membros da comunidade, ficando isolados e por sua própria conta no topo de um bloco de gelo que zarpa em direção ao mar aberto. Assim se inicia uma longa demanda para tentar fazer com que o bloco de gelo regresse ao ponto de partida. Mas a tarefa não se revela nada fácil. Não apenas porque Granny (Wanda Sykes) – a avozinha de Sid – decide fazer a vida negra ao grupo de amigos, mas também porque estes se deparam com um bando de piratas liderado pelo macaco Gutt (Peter Dinklage) que promete dar-lhes água pela barba.

   

A seguir a “Ice Age: The Meltdown” (o segundo filme, estreado em 2006), este “Ice Age: Continental Drift” é o mais fraquinho da saga. “Ice Age: Dawn of the Dinosaurs” (de 2009) tinha voltado a conquistar alguns pontos porque abandonava as narrativas moralistas (e mais que vistas) das famílias felizes e colocava os heróis a viverem de novo uma grande aventura. Ora, este quarto filme torna a descair um pouco, porque volta a insistir no aborrecido e desgastado tema das famílias felizes que tudo são capazes de alcançar se se unirem em prol de um objetivo comum. A mensagem por detrás do fogo-de-artifício faz todo o sentido, como é óbvio. O problema é que se trata de uma mensagem explorada até à exaustão em fitas anteriores, destruindo o sentimento de novidade e realçando o déjà vu. Estamos perante uma obra que é divertida quanto baste para entreter espectadores de todas as idades, apresentando sequências de ação de bom nível, tiradas cómicas minimamente satisfatórias e um leque de personagens principais que se complementa de forma quase perfeita. Porém, a narrativa roça por momentos uma infantilidade excessiva, levando o espectador adulto a pensar se entrou na sala de “Ice Age: Continental Drift” ou na sala de “Sininho Salva as Fadas: Parte 4”. Das personagens novas trazidas pela dupla de realizadores Steve Martino/Mike Thurmeier, apenas três se aproveitam verdadeiramente: a Granny de Wanda Sykes, o Capitão Gutt de Peter Dinklage e o pirata Flynn de Nick Frost. Todas as outras eram escusadas, com especial destaque para Shira (a tigre dentes-de-sabre de Jennifer Lopez), que apenas realça a infantilidade da narrativa através da necessidade mórbida dos argumentistas em arranjar casalinhos para toda a gente. Se houver uma quinta parte da saga, só falta mesmo arranjar par para Sid, pois todos os outros estão já casadinhos da silva (aqui se compreende a razão pela qual referimos que a narrativa era conservadora…). Em poucas palavras, até o pobre Scrat já não conseguedesencadear o mesmo lote de gargalhadas, pelo que fica a ideia de que a saga “Ice Age” já deu o que tinha a dar (como a saga “Shrek”, aliás). 

 Classificação – 3 Estrelas em 5

Crítica - 21 Jump Street (2012)

Realizado por Chris Miller e Phil Lord
Com Channing Tatum, Dave Franco, Jonah Hill

A série criminal “21 Jump Street” gozou de algum sucesso mediático durante os quatro anos em que foi exibida pela FOX nos Estados Unidos da América, mas acabou por ser cancelada em 1991 devido a uma repentina quebra da sua popularidade e à aparente falta de disponibilidade da sua grande estrela (Johnny Depp) em protagonizar mais uma temporada, já que no horizonte de um jovem Johnny Depp já se começava a vislumbrar uma brilhante carreira na sétima arte. Esta decisão administrativa matou esta série, mas não encerrou em definitivo a Esquadra 21 Jump Street que volta a abrir as suas portas nesta divertida mas ocasionalmente ridícula adaptação cinematográfica, onde Channing Tatum e Jonah Hill dão vida a Jenko e Schmidt, dois jovens adultos que estão preparados para deixar para trás os traumas da adolescência. Os dois decidem tornar-se policias mas, após uma desastrosa primeira missão, são colocados na Jump Street, uma divisão secreta que se especializa em crimes cometidos por jovens. Eles são incumbidos de se infiltrarem num liceu e descobrirem quem é que está por detrás de um complicado esquema de tráfico e distribuição de droga.


O enredo deste “21 Jump Street” não é nada sério nem faz muito sentido, mas admito que me diverti bastante a ver esta cativante comédia de ação, que consegue compensar a sua incrível falta de coesão e credibilidade com algumas sequências hilariantes que fogem um pouco do imaturo e leviano humor sexual que encontramos na maioria das comédias norte-americanas. O sucesso destas abundantes e divertidas cenas de ação e comédia deriva sobretudo da forma como aproveitam a excentricidade e a forte amizade que une as duas personagens principais para entreter o espetador e mergulhá-lo numa aventura policial nitidamente absurda que, em última análise, não convence no plano narrativo mas satisfaz no plano cómico. A explosiva dupla Jonah Hill/Channing Tatum também tem uma importante quota de responsabilidade no sucesso cómico desta obra. Estes dois jovens atores em ascensão exibem uma impressionante química no grande ecrã e acabam por estar no meio das melhores e mais divertidas cenas deste filme, que conta também com dois cameos um pouco desapontantes de duas das maiores estrelas da série televisiva: Johnny Depp e Peter DeLuise. Em suma, “21 Jump Steet” é menos sério que a sua base televisiva mas é, ainda assim, uma agradável surpresa e uma boa aposta para um serão de cinema mais desmiolado e descontraído. 

Classificação - 3,5 Estrelas em 5

Pérolas Indie - Being Flynn (2012)

Realizado por Paul Weitz
Com Julianne Moore, Paul Dano, Robert De Niro
Género – Drama

Sinopse - A história de “Being Flynn” é nos contada sob o ponto de vista de Nick Flynn (Paul Dano) e Jonathan Flynn (Robert de Niro). O primeiro é um jovem escritor que procura definir-se. Ele tem saudades da sua falecida mãe, Jody (Julianne Moore), e da sua natureza ternurenta, mas mal se lembra do seu pai, porque já não o vê há mais de dezoito anos. O seu pai chama-se Jonathan Flynn e há muito tempo que se definiu a si próprio como um dos grandes escritores norte-americanos Após ter abandonado a sua mulher e o filho, Jonathan decidiu enfrentar a vida com os seus próprios meios, e acabou por cumprir uma pena de prisão por passar cheques falsos. Após sair da prisão, ele começou a conduzir um táxi durante alguns anos, mas com a bebida e as excentricidades a aumentar, Jonathan perde subitamente esta sua forma de subsistência e a sua própria casa, recorrendo por isso à compaixão do seu distante filho que não hesita em ajuda-lo. Nick prepara-se então para integrar o pai na sua vida, mas depressa se apercebe que o seu esforço é em vão, pois o pai desaparece outra vez sem deixar rasto. Prosseguindo a sua vida, Nick aceita um emprego num centro para os sem-abrigo, onde aprende a relacionar-se com os que menos afortunados que chegam, noite após noite. Ao lidar com os sem-abrigo - alguns de forma permanente, outros temporários - e ao ouvir as suas histórias, Nick encontra finalmente o seu propósito de vida e de trabalho. Para além disto, envolve-se romanticamente com uma bela colega de trabalho chamada Denise. Numa noite, Jonathan surge no centro, à procura de uma cama, e o sentido de compaixão de Nick vacila. Para dar a ambos uma oportunidade real de futuro, Nick terá de decidir para quem procurar primeiro redenção. 

Crítica – É bom ver Robert de Niro a brilhar ao mais alto nível num drama tão forte como este “Being Flynn”, uma realista e comovente adaptação cinematográfica de “Another Bullshit Night in Suck City”, um aclamado livro de memórias da autoria do poeta e dramaturgo Nick Flynn. A história desta obra foca-se sobretudo nos altos e baixos da difícil relação familiar entre Jonathan e Nick, duas personagens com personalidades bastante fortes e altamente destrutivas que finalmente chocam uma com a outra quando o negligente Jonathan é obrigado a pedir ajuda e apoio ao seu desnorteado filho. Este seu súbito recontro familiar abala de imediato a sanidade e a confiança de Nick, um jovem adulto cheio de potencial mas com um passado bastante traumático que envereda por um caminho autodestrutivo quando começa a lidar diariamente com o violento e volátil temperamento do seu pai, que não consegue aceitar ou assumir que é um simples sem-abrigo sem nenhuma brilhante carreira literária pela frente. Esta delicada e atribulada relação deixa portanto várias mazelas emocionais em Nick, mas ele acaba eventualmente por recuperar e por encontrar o seu próprio rumo, já o racista e teimoso Jonathan parece irremediavelmente perdido no meio da ilusão de grandeza que foi criando na sua cabeça ao longo dos anos e que o levou a deixar a sua família. As suas maiores fraquezas são expostas por esta relação mas também pelo progressivo declínio da sua vida que nunca foi tudo aquilo que ele esperava. Para além deste comovente duelo familiar, “Being Flynn” também aborda levemente o crescente problema da pobreza e da proliferação dos sem-abrigo, ao utilizar as duras experiências de Jonathan no sobrelotado abrigo social e nas frias ruas citadinas para demonstrar a crueldade e a violência da lei das ruas. Este retrato socioecónomico é interessante, mas teria sido ainda mais abrangente e complexo se tivessem sido exploradas, com um pouco mais de profundidade e qualidade, as histórias de vida de outros sem-abrigo. Esta clara falta de ambição não retirar nenhum valor ao cativante argumento desta produção independente, que também podia ter abordado com um maior detalhe o traumático passado familiar das personagens centrais, no entanto, estas pequenas falhas acabam por não abalar as suas fortes mensagens morais. O sucesso dramático desta obra também deriva das carismáticas e convincentes performances de Paul Dano e Robert De Niro, este último destaca-se sobretudo graças à forma imensamente expressiva como aborda algumas das cenas mais poderosas do filme. No final de contas, “Being Flynn” tem que se encarado como um filme pesado e pouco ritmado mas é, mesmo assim, um drama bastante bom que leva o espetador numa gratificante viagem melodramática pela frieza das ruas e pelos meandros de uma difícil relação familiar. 

 Classificação – 3,5 Estrelas em 5

Pérolas Indie - Corpo Celeste (2011)


Realizado por Alice Rohrwacher
Com Salvatore Cantalupo, Yle Vianello, Anita Caprioli
Género – Drama

Sinopse – Marta (Yle Vianello) tem treze anos e, após dez anos passados com a família no estrangeiro, regressa ao sul profundo italiano, a Reggio Calabria, a cidade onde nasceu. Com ela estão a mãe e a irmã mais velha, que mal a suporta. Marta começa imediatamente a frequentar o curso de preparação para o crisma: está na idade certa e é também, repetem-no todos, um belo modo de fazer novos amigos. Sem o crisma nem sequer se pode casar! É assim que encontra Don Mario, um padre azafamado e distante que administra a igreja como uma pequena empresa, e a catequista Santa, uma senhora bastante divertida que conduzirá as crianças à confirmação. 

Crítica – A 8 ½ Festa do Cinema Italiano 2012 apadrinhou a estreia nacional desta realista e interessante obra italiana que tenta expor subtilmente os maiores problemas e fragilidades atuais da igreja católica. A trama escrita por Alice Rohrwacher nunca entra por fortes enigmas filosóficos ou polémicas teológicas mas consegue, mesmo assim, fazer uma breve e elucidativa análise do estado atual do catolicismo ao utilizar os vários problemas da envelhecida e isolada Paróquia de Reggio Calabria para expor algumas das maiores fraquezas desta religião, assim sendo, encontramos ao longo do filme várias alusões à cada vez mais fraca adesão dos mais novos aos valores e ao estilo de vida cristão, à crescente comercialização do cristianismo, às fracas assistências que se começam a verificar nas missas e nas festas católicas, à lenta modernização das envelhecidas políticas cristãs, à degradação dos templos de oração e, claro está, à forma antiquada e repressiva como a igreja ainda trata as mulheres, as relações sexuais e tudo aquilo que vai contra a sua ideia de normalidade. Rohrwacher aproveita os evidentes contrastes entre as personalidades das várias personagens principais para enfatizar estes problemas, nomeadamente o clássico contraste entre a inocência de uma criança (Marta) e a vasta experiência corrosiva de um homem maduro (Don Mario). Ao focar grande parte da sua atenção nos problemas da igreja, “Corpo Celeste” acaba por não abordar com o devido pormenor a história individual de Marta, uma pré-adolescente que durante o filme passa por várias mudanças sociais, culturais e naturais que nunca são exploradas com o máximo detalhe possível e que acabam por não ter o impacto dramático que mereciam. É claro que esta pequena falha retira um pouco de valor a esta obra que, ainda assim, deve ser encarada como um inteligente e agradável filme independente que tem um bom argumento, uma talentosa realização da promissora Alice Rohrwacher e um elenco bastante razoável, onde se destaca  a curiosa e credível Yle Vianello. 

Classificação 3,5 Estrelas em 5

Espaço Portugal – O Crime do Padre Amaro (2005)

Realizado por Carlos Coelho da Silva
Com Soraia Chaves, Jorge Corrula, Ruy de Carvalho

Inicialmente concebido como uma mini-série de televisão, O Crime do Padre Amaro é a segunda adaptação à grande tela do muito conhecido romance de Eça de Queirós. A primeira destas adaptações, curiosamente, e tal é a universalidade do tema abordado, surgiu no México em 2002.
A questão da luta desumana entre a obrigação de celibato dos padres e os seus desejos sexuais aqui tratada chocou tanto em 1875, altura da publicação da obra, como em 2005 quando Carlos Coelho da Silva, a partir de um argumento adaptado por Vera Sacramento, ousou mostrar ao público as mais arrojadas cenas de sexo do cinema português. À fortíssima carga sexual deste filme certamente não é alheia a sensualidade suprema de Soraia Chaves. Nesta obra, o crime do padre de Leiria é transposto para um bairro degradado da periferia de Lisboa onde o jovem Amaro (Jorge Corrula), acabado de sair do seminário, conhece Amélia (Soraia Chaves), encontro que o leva a questionar todos os valores e espirituais que até aí tinha como certos.


Esta recontextualização insere o filme tanto na tradição da adaptação ao cinema de clássicos da literatura portuguesa como na tendência mais recente para centrar a ação em zonas degradadas da periferia, conseguindo ainda inovar extraordinariamente ao atingir em cheio a sexualidade dos espetadores e os levar a sentir empatia com o jovem padre. Num país ainda muito conservador e machista, esta coragem não só deu celebridade a Soraia Chaves como marcou decisivamente o imaginário sexual de muitos adolescentes e não só.
O filme agrada-me particularmente por estas razões. Sexo, literatura, cinema, crítica social e moral são muito bem conjugadas numa obra que, sem pretensões intelectuais, atinge no âmago uma das questões tabu da atualidade. Soraia Chaves consegue relegar para terceiro plano todas as demais interpretações, o ritmo é muito forte e todos os elementos são sobrepostos de forma exemplar. 

Crítica - Abraham Lincoln: Vampire Hunter (2012)

 
Realizado por Timur Bekmambetov
Com Benjamin Walker, Dominic Cooper, Rufus Sewell, Anthony Mackie

Os filmes de vampires estão na moda. E as adaptações cinematográficas dos polémicos livros de Seth Grahame-Smith também. “Pride and Prejudice and Zombies” (que muitas voltas no caixão terá provocado à pobre Jane Austen) tem enfrentado algumas contrariedades no que à constituição da equipa de produção diz respeito, mas a produção está assegurada e tem já estreia marcada para 2013. E enquanto essa obra muito curiosa não chega a bom porto, eis que Hollywood nos traz a adaptação de outra história tresloucada de Seth Grahame-Smith: este “Abraham Lincoln: Vampire Hunter”. “Pride and Prejudice and Zombies” colocava Elizabeth Bennet e Mr. Darcy a efetuarem golpes de karaté contra hordas infindáveis de zombies sedentos de sangue. “Abraham Lincoln: Vampire Hunter” coloca um dos mais ilustres presidentes dos Estados Unidos da América a levar uma vida secreta enquanto impiedoso e sanguinário caçador de vampiros. É como se esta obra quisesse competir com a primeira no que concerne a polémica e a falta de lógica da narrativa. Grahame-Smith gosta de provocar e de brincar com conteúdos históricos e/ou classicistas. Já todos compreendemos isso, e é até de louvar a forma como ele consegue colocar personagens “sérias” nas situações mais imprevistas e hilariantes. Porém, se por um lado as suas histórias funcionam como produtos de entretenimento fácil, por outro lado jamais conseguem atingir a consistência necessária para serem levadas muito a sério. Um argumento que é perfeitamente válido para este “Abraham Lincoln: Vampire Hunter”. Pois se é verdade que este filme entretém quanto baste, também é verdade que pouca ou nenhuma lógica possui, levando a sua premissa longe demais e perdendo pontos com um estilo de rodagem quase à imagem de um videojogo desmiolado.

   

Assumindo obviamente uma abordagem ficcional à vida de Abraham Lincoln, a película começa por nos apresentar um Abraham muito jovem, embora já detentor de convicções firmes e ideais incomuns. Enquanto ajudava o seu pai nas tarefas de lenhador, Abraham (Benjamin Walker na versão adulta da personagem) vê o seu amigo de infância Will Johnson (Anthony Mackie também na versão adulta) ser espancado por Jack Barts (Marton Csokas), um empresário rude e pouco amistoso. Pretendendo defender o amigo em apuros, Abraham lança-se então contra Barts, mas acaba apenas por piorar a situação porque provoca o despedimento do pai e a fúria do empresário. Poucos dias mais tarde, a mãe de Abraham morre misteriosamente e o rapaz convence-se de que o responsável pela tragédia é Barts, jurando vingar-se dele quando o momento mais oportuno surgisse. Ao atingir a maioridade, o momento surge finalmente e Abraham enfia um balázio na cabeça de Barts. Porém, de forma verdadeiramente surpreendente, Barts ergue-se do chão como se nada tivesse acontecido e ataca Abraham com uma bocarra repleta de dentes afiados. Com a ajuda do misterioso Henry Sturgess (Dominic Cooper), Abraham acaba por sobreviver ao ataque, mas entra em colisão com um mundo que julgava não existir: um mundo repleto de vampiros e demónios das profundezas. Incapaz de ficar indiferente ante esta nova realidade, Abraham forma então uma equipa com Sturgess para caçar vampiros um pouco por toda a América. Mas conseguirá ele conciliar a vida de caçador de demónios com a sua ambição de se tornar um advogado e um político de renome? 

 

O que se pode dizer de um filme que coloca Abraham Lincoln com um machado na mão a perseguir vampiros, a despedaçar árvores gigantescas com um só golpe e a saltar de comboios em chamas enquanto rodopia o machado nos punhos em grande estilo? Bom, pode dizer-se que é um filme onde a loucura impera e onde nada deve ser levado muito a sério. É quase como se tivéssemos um D. Afonso Henriques a caçar lobisomens nas florestas do condado portucalense. Obviamente que tal coisa tem de ser vista com um espírito muito (muito mesmo) aberto e sem grandes esperanças de se encontrar um Abraham Lincoln minimamente credível e fiel à realidade histórica. Depois deste filme, Timur Bekmambetov vai seguramente passar a ser conhecido como um dos realizadores mais loucos do cinema contemporâneo. E isto porque “Abraham Lincoln: Vampire Hunter” desafia tudo o que se possa considerar lógico e sensato, oferecendo-nos hora e meia da ação mais tresloucada (e desproporcionada) dos últimos tempos. Todos sabemos que o principal objetivo desta película passa por entreter o espectador. E não há mal nenhum nisso, porque nem todos os filmes têm de ser ensaios filosóficos sobre as crises da vida. Todavia, mesmo os produtos claramente pipoqueiros têm de ter uma base de credibilidade minimamente sólida e consistente. O que está longe de acontecer nesta obra. Dizer que “Abraham Lincoln: Vampire Hunter” abusa do CGI é dizer pouco. De facto, algumas cenas de ação são tão artificiais e inverosímeis que a fita chega mesmo a cair no ridículo. Aqui e ali, alguns movimentos do machado de Lincoln e algumas interações entre personagens exalam alguma piada. Mas como um todo, “Abraham Lincoln: Vampire Hunter” quer ser tão espetacular que acaba por se tornar simplesmente risível. Nota-se claramente que Benjamin Walker não possui ainda o estofo para interpretar uma personagem tão rica e pesada como Lincoln, assim como se nota o absoluto descontrolo narrativo em que Bekmambetov se deixa tombar, privilegiando (e mal) o estilo visual em detrimento do bom senso. Mas o que mais se poderia esperar de uma obra que coloca o nome “Abraham Lincoln” e as palavras “Vampire Hunter” lado a lado no seu título? 

 Classificação – 1,5 Estrelas Em 5

Crítica - Chernobyl Diaries (2012)

 
Realizado por Bradley Parker
Com Jesse McCartney, Jonathan Sadowski, Devin Kelley

O terrível Desastre Nuclear de Chernobyl é indiscutivelmente uma das catástrofes mais faladas e recordadas em todo o mundo, não só porque roubou a vida a milhares de pessoas mas também porque é constantemente evocado durantes os interminável debates sobre os perigos e potencialidades da energia nuclear. Os detalhes mais estranhos e mórbidos deste fatídico desastre têm dado origem a vários produtos de ficção como livros, séries ou videojogos mas, por muito estranho que possa parecer, não existem muitos filmes de ficção sobre esta matéria, assim sendo, quando este “Chernobyl Diaries” foi anunciado muita gente ficou entusiasmada, porque tudo dava a entender que íamos ser presenteados com um filme de terror relativamente diferente sobre uma temática bastante cativante. Infelizmente, “Chernobyl Diaries” não é nada disto, é sim mais um filme de terror sem nenhuma qualidade ou imaginação. A sua história acompanha um grupo de seis jovens turistas que resolve fazer um tipo de turismo alternativo, contratando um guia pouco convencional. Ignorando todos os avisos, o guia leva-os para a cidade abandonada de Pripyat, onde viviam os operários do reator nuclear de Chernobyl e que agora não passa de uma cidade fantasma, vinte e cinco anos após o desastre. Depois de uma breve exploração nas ruínas da cidade, os jovens acabam perdidos, descobrindo que, afinal, não estão sozinhos. 
É quase impossível que alguém não consiga adivinhar como é que esta obra vai acabar ou que personagens é que vão morrer primeiro, porque todo o filme foi montado e é desenvolvido sem nenhuma óbvia preocupação pelo suspense ou pela surpresa, afinal de contas estamos a falar de um filme que se foca num tradicional grupo de jovens e ingénuos estudantes universitários que se vêm envolvidos no meio de uma situação mórbida e inusitada de onde não vão sair vivos. O enredo de “Chernobyl Diaries” é portanto bastante previsível e tem uma abundância incrível de gritantes incongruências narrativas que destroem o pouco sentido de credibilidade e realismo que este filme poderia ter, mas é a ausência de verdadeiras sequências de terror que acaba por afetar mortalmente o seu nível de entretenimento. Uma obra de terror como esta deveria ter pelo menos cinco ou seis cenas violentas e medonhas, mas não tem nem uma sequência apelativa desse género, algo que resulta diretamente da péssima construção do argumento mas também do fraco ambiente montado por Bradley Parker que, para além de um medíocre trabalho de câmara, não conferiu a esta obra nenhuma onda eficaz de medo ou intensidade. O seu pobre e péssimo elenco também contribuiu para transformar este “Chernobyl Diaries” num das maiores desilusões do ano e num dos filmes de terror mais ridículos dos últimos tempos. 

 Classificação – 1 Estrela em 5

Crítica - A Good Old Fashioned Orgy (2011)


Realizado por Alex Gregory e Peter Huyck 
Com Jason Sudeikis, Lake Bell, Leslie Bibb 

O seu título é bastante apelativo e provocador, mas nenhuma destas características pode ser utilizada para descrever com exatidão este “A Good Old Fashioned Orgy” que, infelizmente, é apenas mais uma comédia banal com um elenco mediano e uma narrativa monótona que acompanha a fútil jornada de autodescobrimento de Eric (Jason Sudeikis), um homem solteiro e trintão que é famoso entre o seu unido círculo de amigos pelas ostensivas festas que costuma realizar na casa de praia que o seu pai tem num luxuoso subúrbio costeiro. Quando o seu pai anuncia que vai vender esta mansão, Eric decide organizar uma última e estrondosa festa que terá como base uma bela orgia à moda antiga. Para além de ter que convencer cada um dos seus relutantes amigos a juntarem-se ao bacanal sexual, Eric terá também que encontrar uma forma de impedir que a casa seja vendida antes da festa. 
Para além de um enredo trivial que explora aereamente vários temas comuns e enfadonhos como o misterioso poder da amizade ou do amor, “A Good Old Fashioned Orgy” também nos brinda com uma pobre vertente romântica e com uma desapontante vertente humorística que se foca demasiado no sexo e na ilusão de nudismo, dando assim origem a um série de cenas fáceis e reles que raramente têm piada. Estas debilidades narrativas e humorísticas acabam por dar cabo de um filme com potencial, que até poderia ter dado uma boa e inovadora comédia se os seus criadores não tivessem desenvolvido de forma vulgar e estereotipada o seu interessante conceito. A realização de Alex Gregory e Peter Huyck também está longe de ser perfeita, podendo o mesmo ser dito do trabalho coletivo do seu mediano elenco. Jason Sudeikis e Tyler Labine até têm duas performances razoavelmente divertidas, mas os seus restantes companheiros deixam muito a desejar. É precisamente com este sentimento de desilusão e insatisfação que ficamos no final deste “A Good Old Fashioned Orgy”, uma comédia cujo curto potencial foi completamente destruído pela frivolidade dos clichés e pela imaturidade do seu humor. 

 Classificação – 2 Estrelas Em 5

Crítica - LOL (2012)

Realizado por Lisa Azuelos
Com Ashley Greene, Demi Moore, Miley Cyrus

Quando um estúdio toma certas decisões que deixam no ar a ideia que um dos seus filmes é bastante mau, então só podemos presumir que essa obra é realmente má demais para ser vista. Ao limitar a estreia de “LOL” nos Estados Unidos da América, a Lionsgate deixou bem claro que este remake norte-americano do homónimo filme francês é uma autêntica nulidade e um filme a evitar. Os seus péssimos materiais promocionais também nos deixam com essa ideia, mas nenhum aviso ou crítica consegue preparar devidamente o espetador para o pobre espetáculo cinematográfico que nos é oferecido por este pérfido produto juvenil, onde a mediana Miley Cyrus dá vida a Lola, uma adolescente que ficou devastada após ter terminado o seu relacionamento amoroso com o seu ex-namorado. O seu mundo fica ainda mais virado do avesso quando percebe que o seu melhor amigo, Kyle (Douglas Booth), pode ser o seu verdadeiro amor. Para além de ter que lidar com os clássicos dramas e romances de liceu, Lola terá também que lidar com a sua controladora mãe, Anne (Demi Moore), uma mulher divorciada que tenta compreender os dramas da puberdade numa era em que toda a vida social e emocional dos jovens está ligada ao YouTube, Twitter ou Facebook.

É praticamente impossível encontrar um aspeto positivo neste paupérrimo filme juvenil que explora, sem nenhuma coesão ou criatividade, os ridículos melodramas familiares e românticos de uma adolescente extremamente irritante que passa quase todo o filme a discutir ou a fazer birras. Estes seus pseudo-problemas resumem-se basicamente a patéticas discussões familiares e a incomplexas dúvidas amorosas que são exploradas sem nenhuma credibilidade ou emotividade por um enredo bastante previsível e imaturo. É por causa desta péssima construção narrativa que “LOL” se pode orgulhar de ter uma grande variedade de sequências monótonas e absolutamente desnecessárias que incluem, quase sempre, um diálogo frívolo entre personagens fortemente estereotipadas. Os nítidos e crassos problemas do seu argumento são exacerbados pelo horrível trabalho de Lisa Azuelos. Esta cineasta até deixou boas indicações com o seu trabalho na versão francesa, mas pelos vistos não conseguiu lidar com a pressão de um grande orçamento e acabou por conferir um estilo nada moderno mas bastante amador e televisivo a este remake. O festival de mediocridade arrasta-se também aos seus variadíssimos elementos técnicos e ao seu elenco, onde encontramos um sem número de péssimas performances, sendo de destacar, como é óbvio, o horripilante desempenho de Miley Cyrus, uma cantora/ atriz que muito sinceramente devia dedicar-se apenas ao mundo da música. Resumindo, “LOL” é um filme mau a todos os níveis e só um admirador fanático de Miley Cyrus é que poderá achar o contrário. 

Classificação – 0,5 Estrelas Em 5

Pérolas Indie - The Joneses (2009)

Realizado por Derrick Borte 
Com Amber Heard, David Duchovny, Demi Moore 
Género – Comédia Romântica 

Sinopse – Quem olha para os Joneses vê uma família unida e rica que, à primeira vista, não tem nenhuma imperfeição. Os seus quatro membros são todos bastante amigáveis e giros, algo que os torna bastante populares entre os seus vizinhos que rapidamente querem ter um estilo de vida semelhante ao seu. O que estes impressionáveis vizinhos não sabem é que os Joneses não são uma família de verdade, mas sim um grupo de desconhecidos que trabalham para uma empresa de marketing de guerrilha e que sabem, como ninguém, fazer com que todos desejem aquilo que já têm. 

Crítica – É verdade que “The Joneses” já estreou em solo norte-americano há mais de dois anos, mas tal fato não retira nenhum valor a esta leve comédia romântica, que se consegue destacar da repetitiva concorrência graças às pequenas críticas sociais que faz ao crescente comportamento consumista da nossa sociedade, críticas essas que resultam diretamente da estratégica interação dos Joneses com os seus vizinhos e da reação destes perante a sua devastadora influência. A história deste filme deriva portanto de um interessante conceito satírico que até poderia ter sido alvo de uma abordagem mais completa e profunda, no entanto, os pequenos ataques à ilusão de ostentação e à necessidade de aceitação que afeta a sociedade moderna, cumprem a sua função e até conseguem abafar a previsibilidade da já muito vista fórmula narrativa desta obra, que assenta sobretudo no tradicional romance entre um homem e uma mulher com diferentes ideais que vão sucumbindo lentamente à forte química que existe entre eles. A evidente banalidade desta sua vertente romântica é claramente um dos seus maiores defeitos, mas o seu enredo também falha na forma leviana e esvairada como aborda os problemas pessoais das personagens secundarias, nomeadamente aqueles que afetam os dois filhos fictícios do casal central que, para ser franco, passam completamente ao lado deste filme que também não tem nenhuma grande ou imaginativa cena de humor. Para além de um enredo inconstante que deriva de um bom conceito, “The Joneses” conta também com uma realização satisfatória e com um elenco razoável que é liderado por David Duchovny e Demi Moore, dois experientes atores que têm duas performances bastante convincentes, não se podendo dizer o mesmo de Amber Heard e Ben Hollingsworth que não nos despertam nenhum interesse, muito por culpa da fraca construção das suas respetivas personagens. Eu admito que “The Joneses” é uma comédia que não nos faz rir e que tem mais defeitos que virtudes, mas nos dias que correm é difícil de encontrar um filme do género que seja tão refrescante e idealista como este. 

 Classificação – 3 Estrelas Em 5

Os Filmes dos Óscares – Wings (1929)

A 16 de Maio de 1929 teve lugar no Hotel Roosevelt em Hollywood a primeira cerimónia de Entrega dos Prémios de Mérito da Academia mais conhecidos por Óscares. A origem deste nome não oficial é alvo de diferentes versões mas seja qual for a verdade é de facto por este nome que a estatueta é conhecida em todo  mundo. Todos os anos a cerimónia, considerada o mais importante acontecimento cinematográfico mundial, é visionada por pessoas de todo o planeta. Muitos discordam das decisões dos mais de 5. 800 membros da Academia e os filmes oscarizados são sempre alvo de acesos debates, certo é que a atribuição da estatueta é fundamental para a carreira do filme em questão. Iremos lembrar aqui os filmes vencedores na categoria de Melhor Filme, desde 1929.

De William A. Wellman 
Com Clara Bow, Charles "Buddy" Rogers, Richard Arlen, Gary Cooper 


Wings, filme mudo de 1927, foi o primeiro na História dos Óscares  a receber o prémio de Melhor Filme. Em 1929 existiam, convém lembrar, apenas as categorias de Melhor Produção e Melhor Produção de Qualidade Artística, tendo Wings ganho o primeiro destes prémios. O Óscar de melhor filme surgiu no ano seguinte e foi então que se decidiu que Wings passaria a ser considerado o primeiro nesta categoria. Foi um dos únicos três filmes a ganharem a estatueta nesta categoria sem que o realizador tenha sido nomeado para a de melhor realizador.


 Nesta película de 141 minutos, dois pilotos da Primeira Guerra Mundial, Jack Powell (Charles "Buddy" Rogers) e David Armstrong (Ricahrd Arlen) , envolvem-se numa luta amorosa pela conquista de  Sylvia Lewis (Jobyna Ralston) da qual faz parte também Mary Preston (Clara Bow) que está apaixonada por Jack. Esta guerra pelo amor coincide com a I Grande Guerra e o consequente envolvimento das personagens na mesma. A solução para este conflito de interesses acaba por depender de toda a injustiça que a guerra acarreta irremediavelmente. Neste filme, e pela primeira vez na História do Cinema, dois homens surgem a beijar-se na face. As incríveis proezas técnicas conseguidas na sua realização e que ainda hoje nos deixam fascinados dada a escassez de meios de então, garantiram-lhe também o Óscar de Melhores Efeitos de Engenharia.

Pérolas Indie - O Cavalo de Turim (2011)

 
Realizado por Béla Tarr e Ágnes Hranitzky 
Com János Derzsi, Erika Bók 
Género – Drama 

Sinopse – Em Turim, em 1889, Nietzsche protege um cavalo que é brutalmente espancado. Depois desse episódio, perderá a razão. No campo, um camponês, a filha e o velho cavalo. Lá fora, uma tempestade. 

Crítica – O ilustre Béla Tarr nunca fez, em toda a sua carreira, um filme comercial ou fácil de entender. A sua brilhante filmografia está repleta de soberbas produções independentes com uma forte carga intelectual e filosófica, que têm o dom de nos fazer pensar sobre a vida e tudo aquilo que ela engloba. Este “O Cavalo de Turim” segue o mesmo caminho dos seus projetos anteriores e também nos incita a embarcar numa impressionante viagem pelos limites da emoção e do raciocínio, onde todas as interpretações são aceites e nenhuma conclusão está completamente certa ou errada. Apesar de abordar tacitamente um sem número de pontos teológicos e psicológicos, “O Cavalo de Turim” é um filme bastante simplista que utiliza a constante repetição do quotidiano para passar as suas ideias centrais sobre as virtudes e dificuldades da existência humana. Esta construção minimalista permite-nos por isso encontrar algum significado filosófico e existencialista em quase todas as suas cenas, seja nos repetitivos e pouco movimentados serões familiares ou nas constantes viagens que a filha faz diariamente ao poço para ir buscar água. Estas ações parecem, à primeira vista, desprovidas de qualquer sentido mas o seu simbolismo social torna-se evidente à medida que estas vão formando um padrão de previsibilidade que deve ser entendido como uma crítica ao estilo de vida mundano dos seres humanos. As subtis referências ao divino e aos conceitos indeterminados são uma constante e uma necessidade, afinal de contas estamos perante um filme que parece ter fortes influências nietzschianas, não sendo no entanto uma clara interpretação cinematográfica dos seus mais célebres e radicais ideais. Eu acho que “O Cavalo de Turim” é um filme intelectualmente difícil mas não é nada controverso, muito pelo contrário, nenhum tema de grande polémica é abordado com muito detalhe por Béla Tarr, que pretende com esta obra dar seguimento à sua complexa análise da condição humana, análise essa que neste caso concerto se restringe sobretudo ao significado e peso do quotidiano no destino e na vida de um ser-humano. Esta ideia é defendida pelo próprio cineasta que reafirmou por diversas vezes que “O Cavalo de Turim” não é um filme sobre a morte ou o divino, mas sim sobre os humanos e o seu dia-a-dia. A construção e estruturação narrativa criada por Béla Tarr é verdadeiramente exímia, mas a qualidade desta produção também deriva da brilhante edição realizada por Ágnes Hranitzky, que conseguiu dar forma e consistência às várias ideias do famoso realizador húngaro. Esta bela produção também deve muito do seu poder qualitativo ao fantástico trabalho do seu pequeno elenco, nomeadamente aos excelentes János Derzsi e Erika Bók que encaram a banalidade e a lentidão de uma forma soberba. É fácil de ver que “O Cavalo de Turim” não é um filme para todos mas é, sem sombra de dúvidas, uma obra de excelência que vale a pena ser vista com a devida calma e atenção, até porque é um filme extenso e ocasionalmente cansativo que puxa por nós até final. Resta apenas dizer que “O Cavalo de Turim” venceu o Prémio do Júri no Festival de Berlim em 2011 e que será, em principio, o último filme da carreira de Béla Tarr, que assim se despede da sétima arte com um grande trabalho. 

 Classificação - 4,5 Estrelas Em 5

Crítica - The Lucky One (2012)

Realizado por Scott Hicks
Com Zac Efron, Taylor Schilling, Blythe Danner

Nos últimos anos fomos bombardeados com vários filmes baseados nos famosos romances de Nicholas Sparks, mas entre estas inúmeras adaptações cinematográficas só conseguimos encontrar um filme de grande qualidade, falo claro está do fantástico “The Notebook” (2004) que é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes românticos dos últimos anos. Os restantes filmes estão bastante distantes desse elevado nível emotivo, nomeadamente os terríveis “The Last Song”, de Julie Anne Robinson e “Nights in Rodanthe”, de George C. Wolfe. É neste parâmetro que se insere este “The Lucky One”, um filme relativamente superior a essas duas obras, mas que está muito longe de ser um filme romântico minimamente razoável ou convincente. Em “The Lucky One” seguimos a árdua viagem emocional de Logan Thibault (Zack Efron), um Sargento da Marinha dos Estados Unidos da América que regressa da sua terceira viagem de serviço ao Iraque, com a certeza que traz consigo a única coisa que o mantém vivo, uma fotografia que encontrou de uma mulher que não conhece. Ao descobrir que o seu nome é Beth (Taylor Schilling) e onde vive, ele aparece à sua porta e acaba por ficar a trabalhar com a família dela no canil local. Apesar da desconfiança inicial de Beth e das complicações da sua vida, surge um romance entre os dois, dando a Logan a esperança de que Beth poderá ser muito mais do que apenas o seu amuleto da sorte.

   

A história de "The Lucky One" tem uma estrutura bastante similar à de “Dear John (2009), já que em ambos os casos somos confrontados com uma trama melosa e cheia de clichés, onde a guerra tem um papel preponderante no desencadeamento e desenvolvimento do romance central e dos vários dramas que o rodeiam. Em “Dear John” a guerra é utilizada para afastar por algum tempo os protagonistas, mas em “The Lucky One” serve para os juntar, afinal de contas é graças aos eventos que têm lugar durante a Guerra do Iraque que o destino de Logan fica interligado com o de Beth. É claro que este uso da guerra como catalisador melodramático é tudo menos inovador, mas não está entre os maiores problemas deste previsível filme que, para além de assentar numa premissa absurda, está cheio de eventos inverosímeis e twists desnecessários que nunca nos conseguem surpreender ou emocionar. O romance central entre Logan e Beth tem um início ridículo e o seu desenxabido desenvolvimento não é melhor, até porque é pautado por uma série de diálogos entediantes e desconexos que não lhe conferem nenhuma credibilidade. Para além da relação entre Logan e Beth, “The Lucky One” também aborda, sem grande profundidade ou qualidade, várias problemáticas relacionadas com a vida pessoal dos dois protagonistas, sendo de destacar pela negativa a forma patética como é abordado o fato de Logan sofrer de stress pós-traumático, uma perigosa doença mental com graves efeitos crónicos que, no caso desta personagem, só se manifesta timidamente em duas cenas e é miraculosamente tratada com um longo passeio ao ar livre. São falhas ridículas e infantis como esta que retiram credibilidade e valor emocional a esta obra que conta também com um mau elenco. Os dois protagonistas, Taylor Schilling e Zack Efron, têm ambos uma performance entediante e fortemente inconvincente a todos os níveis, algo que se manifesta sobretudo na evidente falta de química e paixão entre as suas personagens. É fácil de perceber que “The Lucky One” é um péssimo filme romântico mas é, acima de tudo, mais uma previsível e repetitiva adaptação cinematográfica de um best-seller de Nicholas Sparks, que só agradará às pessoas que gostaram dos últimos livros deste escritor norte-americanos e dos últimos filmes baseados nos seus trabalhos.

Classificação -  2  Estrelas em 5

Crítica - What to Expect When You're Expecting (2012)

Realizado por Kirk Jones
Com Cameron Diaz, Elizabeth Banks, Jennifer Lopez, Rodrigo Santoro

As minhas expetativas para este “What to Expect When You're Expecting” eram extremamente baixas e no final acabaram por se revelar acertadas, muito embora tenha ficado agradavelmente surpreendido com o satisfatório trabalho das várias estrelas que formam o seu elenco e até com a sua fraca mas descontraída história, que se centra em cinco casais que lidam de forma diferente com a gravidez e com os problemas e as alegrias inerentes a este belo processo natural que mudará para sempre as suas vidas.


Tal como os fracos e recentes "New Year's Eve" e "Valentine's Day", "What to Expect When You're Expecting" aborda em simultâneo várias histórias individuais que, neste caso concreto, oferecem-nos um olhar demasiado relaxado e inocente sobre a gravidez e tudo o que ela envolve. Ao todo são abordadas cinco histórias individuais que são levemente baseadas nos relatos e conselhos maternais presentes no homónimo best-seller de Heidi Murkoff e Sharon Mazel, um conhecido guia maternal que tenta elucidar os futuros pais sobre os desafios do período de gestação, no entanto, nenhuma das mini-histórias deste filme tem um conceito muito realista ou um sentido verdadeiramente teórico, sendo até bastante fúteis, irrealistas e entediantes. A única que ainda tem algum interesse é a história de Holly (Jennifer Lopez)/ Alex (Rodrigo Santoro) que aborda timidamente alguns temas realmente difíceis e emotivos como a adoção, a infertilidade e o delicado processo de consciencialização e aceitação das responsabilidades parentais. As outras quatro histórias também exploram algumas consequências da gravidez, mas focam-se sobretudo no romance, no entanto,  por muito estranho que isto possa parecer,  nenhuma das cinco mini-histórias abordadas é dotada de uma vertente romântica minimamente apaixonante ou imaginativa, uma falha grave que se manisfesta essencialmente na medíocre construção e contextualização romântica dos cinco casais centrais e nas conversas sem chama ou fundamento que os membros desses casais têm entre eles. O lado cómico deste filme também é muito fútil, sendo muito difícil de encontrar uma cena verdadeiramente criativa e divertida no meio de tanta coisa desnecessária e aborrecida, muito embora vários atores/ humoristas como Elizabeth Banks, Chris Rock, Rob Huebel, Thomas Lennon e Ben Falcone tenham tentado, sem muito sucesso, conferir um pouco de diversão e sentido de humor a esta obra através das suas carismáticas personalidades. O enredo de "What to Expect When You're Expecting" é desta forma um verdadeiro festival de aborrecimento e leviandade, mas acaba por ser mais coeso e até um bocado mais divertido que os de outras grandes produções do género que passaram recentemente pelas nossas salas de cinema e que são muito piores, a todos os níveis, que esta obra.

Classificação - 1,5 Estrelas em 5

Crítica - 3D Sex and Zen: Extreme Ecstasy (2011)

Realizado por Christopher Sun Lap Key
Com Hiro Hayama, Saori Hara

O sexo vende e atrai multidões. Só isto explica como é que um filme tão vulgar como este “3D Sex and Zen: Extreme Ecstasy" conseguiu chegar às nossas salas de cinema. Esta obra de Christopher Sun Lap Key derrotou “Avatar” no Box Office Chines mas é, muito provavelmente, um dos filmes mais absurdos deste ano, porque não nos oferece mais nada para além de inúmeras e variadas cenas eróticas e sádicas que têm muita nudez, mas que infelizmente não são nada sensuais ou cativantes. A sua história foca-se na jornada erótica de Wei, um seguidor dos pensamentos da Dinastia Ming que acredita que a vida é curta e que deve ser por isso aproveitada ao máximo e em liberdade, no entanto, quando conhece a bela Tie Fei estas suas fortes convicções são abaladas e substituídas por um intenso desejo de agradar à sua parceira e de viver o resto da sua vida ao lado dela.
O título deste filme é bastante chamativo e devo confessar que não é um título enganoso, porque existem realmente várias cenas explícitas nesta obra, no entanto, já todos vimos cenas melhor trabalhadas e muito mais apelativas em várias séries ou filmes (norte-americanos ou internacionais) que não se denominam como um produto erótico e revolucionário. A banalidade das suas cenas eróticas é portanto gritante e acaba por condenar este medíocre filme ao fracasso, porque "3D Sex and Zen: Extreme Ecstasy" não nos oferece muito mais que várias cenas visivelmente fracas de sexo e sadismo que se enquadram numa narrativa confusa e sem nenhum interesse ou coesão, que infelizmente se aventura demasiadas vezes pelo exagero e pelo grotesco, como tão bem comprovam os seus últimos vinte minutos que se centram essencialmente em mutilações sexuais e fetiches exacerbados. Eu admito que o conceito base desta obra até não é mau, mas os seus criadores e realizador deveriam ter enriquecido a já de si limitada vertente erótica com uma satisfatória vertente narrativa, que conseguisse conferir um certo equilíbrio a estra obra que se destaca de outros produtos semelhantes graças às três dimensões, que acabam por não acrescentar grande coisa à experiência visual e sensorial do púbico. Eu continuo a achar que se uma pessoa quiser ver um filme cheio de sexo pode alugar ou comprar um filme pornográfico, que até deverá ter uma história mais cativante e várias cenas sexuais mais explícitas e credíveis que as desta obra chinesa que, muito sinceramente, não vale o preço do bilhete.

Classificação – 1,5 Estrelas em 5

Crítica - Get The Gringo (2012)


Realizado por Adrian Grunberg
Com Mel Gibson, Peter Stormare, Dean Norris

Os últimos anos não foram muito benéficos para a ilustre carreira de Mel Gibson, um outrora solicitado ator/ realizador que, por força de polémicos escândalos privados e de péssimas performances em vários filmes medíocres, foi caindo no esquecimento do grande público que, apesar de tudo, ainda se lembra com saudade dos seus poderosos trabalhos como ator ou realizador em grandes sucessos cinematográficos como “Mad Max” (1979), “Lethal Weapon” (1987), “Hamlet” (1990), “Braveheart” (1995) ou “Signs” (2002). Após uma interessante e emocionante performance em “The Beaver” (2011) que lhe devolveu alguma credibilidade e visibilidade profissional, Gibson volta a brindar-nos com mais um agradável desempenho neste “Get The Gringo”, um filme bastante curioso que realça o lado mais descontraído deste ator que consegue transformar esta pequena obra num satisfatório produto de entretenimento. A história de “Get The Gringo” centra-se num astuto criminoso (Mel Gibson) que é detido pelas autoridades mexicanas, após ter conseguido roubar vários milhões de dólares a um mafioso norte-americano. Sem dinheiro ou identificação, este habilidoso ladrão é sentenciado e enviado para uma prisão de alta-segurança bastante peculiar, onde será forçado a utilizar todos os seus conhecimentos e talentos para sobreviver e lidar com os outros presos. 

 

O elemento que mais salta à vista neste “Get The Gringo” é, sem sombra de dúvidas, a carismática performance de Mel Gibson que se assume claramente como um dos maiores atrativos deste básico mas divertido e ritmado filme de ação que, no meu entender, deve muita da sua qualidade e particularidade ao sólido trabalho desta sua grande estrela. É claro que os outros atores do elenco também merecem algum crédito pelo sucesso desta produção, nomeadamente Kevin Hernandez e Dolores Heredia que dão vida a duas excelentes e relevantes personagens que conseguem incutir um pouco de melodrama a esta obra que é dominada, do início ao fim, por uma agradável mistura entre violência e comédia que confere uma agradável versatilidade ao seu protagonista. Esta hábil e cativante mistura entre humor e ação funciona muito bem e está na base das melhores cenas desta obra, mas não consegue apagar a construção previsível e primária da sua narrativa que infelizmente também peca pela sua falta de criatividade, no entanto, estas evidentes falhas não invalidam o fato de estarmos perante um filme bastante razoável e politicamente incorreto que está cheio de interessantes cenas cómicas e violentas que entretêm o espectador e realçam o evidente talento de Mel Gibson, um veterano da sétima arte que está cada vez mais perto de recuperar o seu estatuto de estrela. 

Classificação – 3,5 Estrelas em 5

Espaço Portugal - A Esperança Está Onde Menos se Espera (2009)

Realizado por João Botelho
Com Ana Padrão, Virgílio Castelo, Carlos Nunes

O pouco provável argumento de Manuel Arouca foi o pretexto para uma incursão na vida do bairro degradado do Alto da Cova da Moura. Lourenço Figueiredo (Carlos Nunes) vê-se aos quinze anos numa posição extraordinariamente difícil. Habituado a uma vida de luxo que o facto de o pai (Virgílio Castelo)  ser treinador de futebol de alta competição lhe proporcionava, de repente perde tudo. A recusa do pai em aceitar pacificamente os esquemas de corruptos dos seus superiores para garantirem vitórias e consequentemente o seu futuro profissional, leva-o a um humilhante desemprego e à perda gradual de todos os seus bens. A mãe, Helena (Ana Padrão),  abandona-os, indo para Angola onde espera conseguir dinheiro suficiente para garantir o futuro do seu filho. Lourenço por seu turno vê, impotente, este desabar da sua família e sofre diretamente as consequências ao ser obrigado a mudar de escola mergulhando numa realidade bem diferente da sua. De um dos mais conceituados colégios passa para a escola da Cova da Moura onde tem de se integrar, descobrindo nesse processo uma forma de vida muito mais dura mas também muito mais humana.


O desejo de denunciar a corrupção institucionalizada no meio futebolístico nacional, ou ainda o de demonstrar a vivência dentro de um bairro como o da Cova da Moura, não são suficientes para fazer o espetador esquecer os muito débeis diálogos e a ingenuidade da presunção de que o Bem se encontra do lado das classes mais desfavorecidas e o Mal do lado dos poderosos. As interpretações de Virgilio Castelo, Ana Padrão e Carlos Nunes são irrepreensíveis mas destoam da falta de capacidade de nos convencer de grande parte do restante  elenco. "A Esperança Está Onde Menos se Espera" peca por ser um filme tão ingénuo como o próprio título e ainda que coerente com as preocupações sociais do realizador fica muito aquém do trabalho a que nos tem habituado.

Crítica - Cosmopolis (2012)


Realizado por David Cronenberg
Com Robert Pattinson, Sarah Gadon, Paul Giamatti


O referencial de Cosmopolis é-nos familiar. A adaptação cinematográfica à obra literária homónima, de 2003, encaixa-se numa Manhattan multifacetada, referência de uma cultura ocidental que tudo aparenta viabilizar. Comprova-o a opulência do especulador Eric Packer, jovem yupie desenraizado, embriagado por uma incalculável fortuna pessoal e acompanhado, em permanência, por uma logística para-militar mitigadora de um receio inflacionado.
Em Cosmopolis, o “valor dos valores” no mundo da alta finança constitui o primeiro alvo de Cronenberg e, a montante, de Don DeLillo. Subentendem-se, nesse sentido, as dimensões do dinheiro, da cultura e do tempo, cujos contornos se esbatem à luz da epidémica crise mundial. Contornos esses que Eric Packer (Robert Pattinson), personificador da alienada geração vigente, desvaloriza.


A economia, os mercados e a política não são ciências exactas, e a inabilidade da estrutura de consultores que assessoria Eric em dirimir um comportamento cambial anómalo, controlada a partir de uma limousine high-tech, confirmam-no. Não há regras ou deontologia subjacentes à iniciativa neoliberal onde Eric opera, que insiste em ignorar as provocações anarquistas, as únicas que se revestem de ideologia ao longo da narrativa.
A bitola de Ulysses, de James Joyce, é indissociável do dia de Eric: o tempo, opressor, desdobra-se em fracções de maior ou menor significado e carece, à semelhança do capital, de outra atenção; os sistemáticos flirts sobrepõem-se à encenação de um matrimónio formal, irremediavelmente fragmentado; a aparição frenética de personagens de profundidade e eficácia duvidosas é constante; o desejo de reviver a figura paterna é indutor de um comportamento errático; o instantâneo e o oportuno esmagam o maturado e o racional.


O teatralizado Cosmopolis constitui uma crítica aguda à actual anemia cultural e ao comportamento de mercados e divisas, viabilizando uma reflexão acerca do antagonismo de perspectivas que cúpulas e classe média desenvolvem em torno da crise global. O seu veículo é a derrota de um micro-cosmos autista, ferido de morte pelas suas fragilidades, às mãos da "moeda do povo": o Yuan, da República Popular da China. 
A discutível presença de Robert Pattison não ensombra Cosmopolis – o seu registo aproxima-se, com competência, do gélido "Bel Ami" – ainda que as maiores valias, num plano individual, se dividam entre Sarah Gadon (mulher de Eric) e Paul Giamatti (pernicioso ex-colaborador), vértices da realidade que o jovem milionário escolhe viver e, apenas no limite, questionar. 
A irrepreensível co-produção de Paulo Branco faz-se acompanhar de uma banda sonora cuidada, plena de modernidade, sem se divorciar dos acordes sombrios de um “Crash” (1996) ou de um “eXistenZ” (1999). Com mais de quarenta anos, o percurso de David Cronenberg continua activo e em progressão. À semelhança de “Eastern Promisses” (2007), “Naked Lunch” (1991), ou "Dead Ringers" (1988), por entre outras, Cosmopolis apresenta-se-nos enquanto obra singular, consonante com o trajecto sinuoso do seu autor e cristalizada por via da exploração exaustiva da sua codificação e léxico. Imprescindível, no seu tempo.


Classificação – 4,5 Estrelas Em 5

Crítica - Prometheus (2012)

 
Realizado por Ridley Scott 
Com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba 

Trinta e três anos são uma eternidade. Mas foi esse o tempo que Ridley Scott necessitou para aceitar regressar ao universo que mais fama lhe trouxe. É certo que o misterioso e enigmático “Blade Runner” também lhe trouxe alguns louvores, assegurando-lhe o estatuto de realizador consagrado. Mas a maioria das pessoas dirão que “Alien” foi e sempre será a sua grande obra-prima. Não apenas pelo que fez pelo género da ficção-científica, mas também pela forma como levou os espectadores numa viagem plena de terror e claustrofobia, “Alien” ficou imediatamente gravado na História da 7ª Arte como um dos seus produtos mais ilustres e meritórios. Escusado será dizer que as sequelas ficaram muito longe de atingir o mesmo patamar de qualidade. A segunda película – “Aliens” – terá sido a única a andar lá perto, mas a adrenalina que James Cameron imprimiu à narrativa fez com que esta perdesse algum do impacto claustrofóbico da fita original, levando a saga numa outra direção. Aguardava-se então que Sir Ridley Scott regressasse aos comandos de uma nave espacial para voltar a colocar a saga Alien nos eixos. Pois bem, Prometheus foi a nave escolhida para tornar isto mesmo uma realidade palpável, mas devemos dizer que esta moderníssima nave de exploração espacial tomou rotas que porventura não seriam muito expectáveis. Começando por ser uma verdadeira prequela de “Alien”, “Prometheus” acabou por se transformar em muito mais do que isso, afastando-se (talvez demasiado) do universo original para explorar novas temáticas. Assim sendo, preparem-se para serem surpreendidos. Mais do que um filme sobre a criatura que fez a vida negra a Ellen Ripley, “Prometheus” é um filme sobre a evolução das espécies em causa (a humana e a extraterrestre). E como tal, tanto poderá despoletar aplausos como desapontar os fãs acérrimos do monstro desenhado por H.R. Giger. 

 

Após a muito aguardada descoberta de pinturas rupestres que apoiam a teoria de que seres de outras galáxias estiveram de alguma forma ligados à evolução da raça humana, a bióloga/arqueóloga Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e o seu companheiro Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) convencem o multimilionário Peter Weyland (Guy Pearce) a financiar uma expedição espacial com o intuito de desvendarem o mistério por detrás da origem da vida. A bordo da nave de exploração espacial Prometheus, Shaw, Holloway e um grupo profissionais sob as ordens da corporação Weyland lançam-se então à aventura pela imensidão do espaço adentro, convencidos de que os extraterrestres a quem chamam “Engenheiros” ainda vivem num planeta bem distante e de que estes possuem todas as respostas para os segredos mais obscuros da humanidade. Porém, Meredith Vickers (Charlize Theron) – a líder da expedição – não acredita muito nas teorias de Shaw e Holloway, mantendo-os sob rédea curta e prometendo-lhes que, à mínima contrariedade, a Prometheus daria uma volta de 180 graus e voltaria para casa o mais rápido possível. De certa forma, Vickers possui um mau pressentimento quanto àquilo que estão prestes a encontrar. E quando esse mau pressentimento ganha contornos de realidade, toda a tripulação da Prometheus é obrigada a enfrentar a maior provação das suas vidas. Pois os propósitos dos “Engenheiros” não correspondem exatamente àquilo que seria de esperar, colocando a vida de todos em risco máximo… 

   

“Prometheus” é um daqueles filmes extremamente difíceis de avaliar. Por um lado, a beleza (e consistência) dos cenários e a destreza de Ridley Scott atrás das câmaras deixam-nos siderados, impedindo-nos de tirar os olhos do ecrã por um segundo que seja. Mas por outro lado, o argumento não possui a solidez que se esperava, oferecendo-nos sequências francamente inverosímeis e deixando-nos com a clara sensação de que se tentou fazer demasiado num só filme. As personagens em geral são fortes e credíveis, mas algumas delas funcionam de forma demasiado previsível e acabam por desapontar o espectador. A narrativa desenrola-se de forma relativamente subtil e equilibrada durante a grande maioria do tempo de película, mas acaba por derrapar um pouco em certos momentos-chave que nos obrigam a torcer o nariz. E como esta é uma fita sobre a evolução da espécie Alien, o monstro que todos ansiavam ver praticamente não se manifesta. Ou, se o faz, fá-lo de formas duvidosas e mais dignas de um filme de zombies à là George Romero. Lembram-se da sensação de desgosto com que saíram da sala depois de verem “Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull”? Lembram-se da forma como o surgimento do óvni na sequência final pareceu estragar tudo, retirando a magia a um dos maiores heróis da 7ª Arte contemporânea? Infelizmente, “Prometheus” tem um pouco disto. Algumas das decisões criativas de Ridley Scott e da sua equipa de argumentistas deixam algo a desejar, retirando alguma da magia ao universo Alien. De repente, e sem estarmos a querer revelar demasiado, o monstro de Giger deixa de ser uma raça extraterrestre de uma galáxia longínqua para passar a ser… bem, uma coisa sem pés nem cabeça. E isso retira-lhe credibilidade. Verdade seja dita, não há nada de terrivelmente errado neste “Prometheus”. Mas ele acaba por ser tão diferente do que estávamos à espera, que acaba por desiludir um pouco. De modo que o conselho que deixamos é este: entrem na sala de cinema com vontade de verem um bom filme de ficção-científica que só por acaso tem alguma coisa a ver com “Alien”. Porque se forem à espera de ver um filme da saga Alien, é praticamente garantido que as expectativas criadas saiam defraudadas. 

 Classificação – 3,5 Estrelas em 5

Espaço Portugal - Douro, Faina Fluvial (1931)

Realizado por Manoel de Oliveira
Com população da zona ribeirinha do Porto

Com uma câmera de filmar de 35 mm oferecida pelo pai e depois de assistir a Sinfonia de uma Capital (“Berlin, Symphonie einer Grosstadt”) de Walter Ruthmann, Manoel de Oliveira, fortemente influenciado também pela vanguarda soviética, principalmente pelo trabalho de Vertov, roda com meios muito limitados a segunda sinfonia urbana portuguesa.
A vida das gentes do rio, o ritmo aluciante da faina, imprimem no realizador uma tal impressão que as filma  de forma contemplativa, como um observador apolítico que pasma perante esta manifestação de vida. Quando o filme é apresentado, em setembro de 1931, no V Congresso da Crítica que decorreu em Lisboa, o público não compreendeu e preocupou-se sobretudo com a imagem do país,  que daí podia advir, invocando um perigoso nacionalismo e desprezando toda a compontente artística da obra. Foram dois nomes de grande prestígio internacional, o dramaturgo Pirandello e o crítico jornal Temps, Émile Vuillermoz, quem compreendeu o valor da obra e a promoveu além fronteiras.


A película, que tem apenas 20 minutos, teve ante-estreia em Lisboa, no Cinema Tivoli, acompanhando "Gado Bravo" de António Lopes Ribeiro. A técnica de montagem, usando cola e tesoura, brilha pela capacidade expressiva e alia-se a uma fascinante fotografia do amador António Mendes. Rodado aos fins de semana, Douro, Faina Fluvial levou dois anos a produzir e, como toda a sua peculiaridade, é um marco fundamental na tradição documental portuguesa. Podemos visionar esta obra ímpar na íntegra no youtube. A banda sonora da posterior versão sonora foi composta por Luís de Freitas Branco. Em 1994, surgiu outra versão, intitulada "Douro, Faina Fluvial 2", de 18 minutos, com música de Emanuel Nunes.

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